Quando a buzina desatina
Brigas familiares, problemas financeiros, amorosos e de saúde são de deixar qualquer um atordoado, mas cada um lida com essas situações de um jeito diferente. Se no seu caso, sair xingando, brigando e destruindo tudo que aparece na sua frente é o que acontece, fique atento. Comportamentos como estes, seguido de um profundo sentimento de vergonha e arrependimento, podem ser uma doença: o transtorno explosivo intermitente.
O indivíduo afetado pelo transtorno é caracterizado pela incapacidade de controlar seus impulsos para agir agressivamente, sem que haja alteração por qualquer substância química ou condições médicas gerais. O grau de agressividade expressada no “surto” é amplamente desproporcional a qualquer provocação ou estresse desencadeante.
Numa cidade grande como São Paulo, fatores sociais podem expor aqueles com predisposição física e psicológica à doença. Um exemplo prático é o trânsito caótico presente no dia-a-dia de qualquer cidadão que sai de casa. Segundo a Associação Brasileira de Monitoramento e Controle Eletrônico de Transito (Abramcet), os engarrafamentos são a maior fonte de irritação para 61% dos motoristas das capitais brasileiras.
Estresse e ataques de fúria constantes, principalmente no trânsito, são extremamente perigosos e podem acabar em episódios de violência. Desde o ano passado o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas dedicou um de seus ambulatórios para tratar apenas de pessoas com o perfil “invocadinho”. O tratamento é feito com psicólogos e psiquiatras e visa ensinar o doente a controlar seus impulsos para poder viver em sociedade.
O Blog da Saúde ouviu o psicólogo Dr. Hélio Guilhardi, especialista em terapia comportamental, para comentar sobre agressões sistemáticas e o comportamento preocupante no trânsito. Confira a entrevista e saiba que soltar um palavrão, se estressar ou se assustar em certos momentos faz parte do contexto.
1. Fatores da vida pessoal podem refletir no modo como as pessoas dirigem?
Sim. Uma pessoa insegura, com baixa auto-estima, pode dirigir com excesso de velocidade ou fazer manobras perigosas e relatar o fato com ar de herói do asfalto para sentir-se reconhecida. Há, por certo, maneiras mais prudentes, maduras e construtivas para uma pessoa manejar suas dificuldades pessoais que não colocando sua vida e a de outras pessoas em risco. Muitos outros perfis de personalidade, de déficits comportamentais, no entanto, poderiam explicar desatinos de motoristas no trânsito. Há que ser apontado, que fatores sociais e culturais interagem com as características pessoais do motorista. Assim, as leis de trânsito, a precária manutenção de estrada e vias públicas, as sinalizações deficientes, congestionamentos, fiscalização quase inexistente, corrupção em vários níveis do sistema coordenador e regulador do trânsito, etc. contribuem para a explosão irresponsável de sintomas pessoais.
2. Existe alguma doença que deixe a pessoa suscetível a perder a paciência no trânsito?
Acredito que há casos em que determinados quadros psicopatológicos predispõem a pessoa a reagir de maneira incomum no trânsito. Não me parece, no entanto, que essa devesse ser a primeira preocupação das pessoas responsáveis pelas condições do trânsito, desdenhando uma política de atuação mais abrangente e responsável, conforme sugerido na questão anterior. Pessoas com alguma forma de desequilíbrio grave, podem ser orientadas por médicos, psicólogos, familiares e – se for o caso – até contidas. Há, porém casos mais corriqueiros e igualmente graves que fogem ao controle no dia a dia. Por exemplo, o uso abusivo do álcool. Uma pessoa pode quase literalmente se “transformar” após o consumo de álcool.
3. Que fatores podem resultar numa atitude de violência no trânsito?
Olhe para a família, para a escola, para as Instituições que formam uma pessoa de bem, um cidadão consciente e você encontrará a resposta para a questão posta. Prejuízos alarmantes para o saudável desenvolvimento de uma criança (a qual virá a ser o adulto que nos preocupa) são produzidos por uma convivência familiar precária, inconsistente e irresponsável. A boa formação de uma criança envolve atenção, carinho, disciplina, orientação etc. em múltiplas e abrangentes áreas do desenvolvimento infantil. Punição não ensina comportamentos apropriados; enfraquece os padrões inadequados temporariamente, apenas enquanto o agente punitivo está presente; gera agressividade e contracontrole inadequados etc.
4. Há um perfil de pessoas mais propensas a brigar no trânsito?
As pessoas com baixa tolerância a frustração têm dificuldades importantes para adiar gratificações e para tolerar condições adversas. Tendem, portanto, a reagir agressivamente, quando as condições lhes parecem adversas. As pessoas pouco flexíveis não conseguem mudar seus objetivos imediatos e quando impedidas de atingir diretamente e de forma previsível e estereotipada suas metas, reagem de maneiras inesperadas e indesejáveis. Não conseguem mudar suas rotinas e, simplesmente, são incapazes de esperar, de ouvir uma música, de adiar suas necessidades imediatas etc. Pessoas competitivas podem interpretar de forma arbitrária e imprópria situações triviais como uma ultrapassagem. Pessoas pouco sensíveis às necessidades do outro tendem a interpretar determinadas atitudes do outro motorista – por exemplo, um sinal de luz pedindo passagem – como agressão (a ser revidada de pronto) e não simplesmente como um pedido feito por alguém que está atrasado para um compromisso. Fundamentalmente, as pessoas mais propensas a brigar no trânsito têm déficits comportamentais e afetivos importantes. Aquelas que agridem, usando o próprio veiculo como sua arma de agressão, são em geral frustradas, medrosas, impotentes diante das dificuldades da vida e incapazes de dialogar.
5. O que devemos fazer para evitar brigas no trânsito? Se escutarmos um insulto do motorista ao lado, o que fazer para se controlar e não responder?
O melhor procedimento é ignorar sinais de agressão, afastar-se da área de perigo (cedendo a passagem, reduzindo sua velocidade, alterando o percurso) e pensar que sua postura mostra equilíbrio e maturidade e que o agressor não está agredindo você, mas um outro anônimo, a quem dirige suas frustrações e dissabores. Evite olhar fixamente para ele, pois tal comportamento pode parecer desafio. Fazer gestos obscenos, nem pensar. Ligue o rádio, mude a sintonia em busca de algo que lhe interesse. O agressor não deve ser o foco mais importante de sua atenção. Caso a situação fuja do controle é mais prudente avisar alguma autoridade competente para cuidar da situação.
6. Motoristas com passageiros mudam significamente a maneira de guiar?
A presença de um passageiro pode ou não amenizar a agressividade do motorista. Não é garantia de nada. Se o passageiro é a fonte principal da ira despertada, determinada reação aos comportamentos do agressor pode piorar ao invés de amenizar a situação. Não há como prever isso à distância. Às vezes, a presença de uma pessoa querida (por exemplo, um filho ou uma mãe) pode manter uma pessoa, usualmente, impulsiva, tranqüila. O problema, porém, pode surgir, a qualquer momento, quando a calma controlada (não espontânea) é interrompida por algum evento que escape ao controle do passageiro. Uma pessoa que tende a se portar de maneira agressiva ou impulsiva em geral não é muito sensível a presença do outro.
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10 de agosto de 2009













