Doenças mentais – diagnóstico sem exageros
Qual a maneira correta de se diagnosticar uma doença mental? Quais são os parâmetros? Será que os profissionais de saúde confundem sintomas? Ou pior, será que a referência de estudo desses profissionais está equivocada? O professor David Goldberg, do King’s College de Londres foi entrevistado na última semana pelo jornal Folha de São Paulo.
Na entrevista, o renomado psiquiatra britânico lembra que seus colegas de profissão precisam abandonar o hábito de subdividir transtornos como depressão e ansiedade em subtipos incontáveis, bem como evitar incluir comportamentos normais como sintomas de doença.
Acompanhe a entrevista do profissional à Folha de São Paulo abaixo.
Quais são as mudanças que o sr. está propondo para a classificação de doenças mentais?
Temos transtornos muito relacionados uns com os outros, em diferentes capÃtulos das duas classificações. Se você tem um transtorno em dois ou mais capÃtulos, significa que você tem duas ou três doenças completamente diferentes. Acho isso estúpido, porque há apenas variações pequenas de sintomas que distinguem um transtorno do outro. Estou me referindo aos transtornos emocionais, que incluem as depressões unipolares simples, os estados de ansiedade, os transtornos de medo e os de ordem somática. Essa distinção clara entre doenças não existe na natureza. Você só pode fazer diagnósticos ignorando alguns sintomas, então seria melhor se os médicos apenas descrevessem os sintomas gerais que as pessoas têm nesse grupo de transtornos. Hoje, os psicólogos já fazem isso, falam em coisas como “transtorno de pânico com ansiedade geral” ou “agorafobia com pânico” e combinações de transtornos de medo. Nós poderÃamos fazer o mesmo. Por que não falamos em “depressão ansiosa”, que é o tipo mais comum de transtorno, ou “ansiedade com sintomas somáticos”, se essas são as combinações que se costuma encontrar?
No Brasil, a comunidade acadêmica usa mais o DSM, enquanto as autoridades de saúde usam a CID. Isso não gera confusão?
A CID tem três diferentes versões. Uma delas é a versão acadêmica, que é uma “cópia xerox” do DSM. É um xerox muito malfeito, porém, porque há 78 diferenças entre a maneira como ambos definem doenças mentais. É preciso harmonizar essas diferenças, porque ter um diagnóstico definido de duas maneiras diferentes deixa todo mundo louco.
Alguns psicólogos creem que se diagnostica depressão em pessoas com um tipo normal de tristeza. O DSM e a CID têm culpa nisso?
Com relação ao DSM, há uma tendência de incluir no manual aquilo que se chama de depressão subclÃnica, abaixo do limiar [para ser considerada transtorno]. Eu me oponho a isso rigorosamente porque não gosto de medicalizar estados de tristeza moderada pelos quais todos passamos. Os pacientes querem saber se existe uma intervenção que vai ajudá-los. Não existe evidência de que, em se tratando da depressão subclÃnica, eles serão ajudados com uma droga.
Outro ponto do DSM sobre o qual há controvérsia é o TDAH (Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade). Alguns psicólogos dizem que crianças desatentas, porém normais, têm sido diagnosticadas e tratadas com ritalina.Â
É um risco opinar sobre algo que ocorre em outros paÃses [como os EUA], mas minha impressão é que há diagnóstico em excesso. Mas o que me preocupa mais são as drogas letalmente ativas que estão sendo usadas para tratar crianças hiperativas. Fico alarmado quando crianças as tomam.
Isso não seria problema se a ritalina não fosse tão usada?
A ritalina é muito eficiente para hiperatividade, não é o caso de bani-la. Muitos professores primários se recusam a ter algumas crianças em suas salas a menos que elas tomem ritalina. Do ponto de vista do ensino, ela é defensável.
Quanto ao excesso de diagnósticos, se a culpa não é do DSM, são os psiquiatras americanos que estão exagerando?
Há pessoas que não são americanas e se interessam em transtornos subclÃnicos. Elas querem identificá-los e atribuir-lhes códigos numéricos com aparência cientÃfica. Você tem de limitar o que define como doença mental, e o melhor meio de fazer isso é rotular apenas coisas para as quais haja evidência de que tratamentos ativos sejam melhores do que placebos. As evidências são pobres de que a depressão subclÃnica, por exemplo, é afetada pelo tratamento.
Se perguntar a adolescentes sobre seus hábitos alimentares, aqueles que poderiam ser chamados de transtornos alimentares subclÃnicos são muito mais comuns do que a bulimia e a anorexia nervosa completas. Muitos estão sendo diagnosticados com “transtornos alimentares não classificados”. Se você quer impedir esses transtornos de se desenvolverem, é preciso reconhecer que eles existem em um grau subclÃnico, sem necessariamente chamá-los de doenças. O que importa é que a criança e a famÃlia recebam bons conselhos. Há áreas em que olhar para os transtornos subclÃnicos é útil, do ponto de vista preventivo.
Os manuais ainda incluem transtornos de conduta sexual?
Sim. É útil ter nomes para transtornos para os quais existe um bom tratamento. Um dos aspectos positivos sobre problemas sexuais é que geralmente eles são tratáveis.
Os psiquiatras têm mostrado vontade de mudar a CID?Â
Nem todo mundo agirá em favor de uma nova classificação, mas é interessante ver como as classificações mexem com a visão dos médicos. Eles veem o mundo por categorias descritas nas grandes classificações, e acho que simplificá-las seria importante para eles e para a humanidade.
Qual a sua opinião a respeito do assunto? Você já chegou a confundir sintomas? Comente.
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Blog da Saúde
7 de dezembro de 2009











Ao ler a entrevista do Dr. David Goldberg, ficam com algumas impressões:
Um olhar estritamente biomédico ainda persiste no que se trata de doenças mentais, pois faz uma distinção entre aquilo que é "Clínico" e "Sub-clinico". Parece dizer que algumas coisas "são" da medicina psiquiátrica, outras não. Dizer que a visão médica "ainda" se dá em categorias equivale a dizer que você terá suporte de um profissional da saúde se o problema for "clínico", caso não, utilize seus próprios recursos emocionais.
Em termos de saúde mental, isto é temerário, pois desde 1948 a OMS já definia a saúde como um estado de bem-estar biopsicossocial – e agora espiritual, e desde 1970, fala-se de níveis de prevenção da doença e promoção da saúde mental (ver Caplan e José Bleger).
O mais importante é entender que a pessoa que tem – no sentido de "estar" – um transtorno mental ou emocional, não consegue agir de outra forma, pois sua adaptação está prejudicada: ela tem a mesma resposta em todas situações.