O Ministério da Saúde recomenda não oferecer café a menores de 2 anos, inclusive misturado ao leite. Para crianças maiores e adolescentes, a Academia Americana de Pediatria também recomenda evitar a cafeína. Uma xícara pequena de café forte pode ter mais cafeína do que parece. Somada ao mate, ao refrigerante de cola ou a um energético no mesmo dia, a bebida pode dificultar o sono ou provocar palpitações.
Por que o café com leite também conta?
No café da manhã em família, algumas crianças querem experimentar o que os adultos bebem. O leite clareia o café e suaviza o sabor. Se a quantidade de café que foi colocada no copo continua a mesma e a criança bebe tudo, ela ingere a mesma quantidade de cafeína. O açúcar também muda o gosto, sem retirar o estimulante. É por isso que o guia alimentar brasileiro para menores de 2 anos menciona expressamente o café com leite.
Estudos sobre o consumo de café por adultos não justificam oferecê-lo a uma criança para melhorar a memória, o humor, o intestino ou a respiração. Quando ela anda sonolenta na escola ou tem dificuldade de se concentrar mesmo depois de dormir, o café pode deixá-la desperta por algum tempo. A causa do cansaço continua lá e, se a queixa persiste, faz parte da avaliação pediátrica.
Como a cafeína interfere no sono

Ao longo do dia, uma substância chamada adenosina ajuda o cérebro a perceber a necessidade de dormir. A cafeína ocupa temporariamente os receptores nos quais a adenosina atua. A criança pode se sentir mais desperta mesmo tendo dormido pouco. O efeito pode durar várias horas, por isso o café ou o chá-mate no fim da tarde pode atrasar o sono à noite.
Além da dificuldade para adormecer, podem aparecer inquietação, ansiedade, náusea, diarreia ou sensação de coração acelerado. A cafeína também pode elevar a pressão e acelerar a respiração. Quando o efeito passa, algumas crianças sentem dor de cabeça, cansaço ou irritação. Esses sintomas têm várias causas. O horário em que começaram, o que a criança tomou e a quantidade ajudam a interpretar o episódio.
Um exemplo é o adolescente que toma um energético para estudar até mais tarde. Ele consegue ficar acordado, dorme menos e chega cansado à aula seguinte. Repetir a bebida de manhã pode disfarçar a sonolência por mais algumas horas, sem recuperar o descanso de que dependem a atenção e o humor.
O que muda com a idade?

Antes dos 2 anos, o guia do Ministério da Saúde orienta evitar também mate, chá preto, chá verde e refrigerante de cola. Para o bebê em aleitamento materno exclusivo, o leite materno já atende à sede nos primeiros seis meses. Quando começa a alimentação complementar, a água passa a acompanhar os alimentos. Café diluído ou chá-mate, mesmo sem açúcar, não substitui a água.
O segundo aniversário não marca uma mudança brusca na tolerância à cafeína. Para uma criança maior, ter provado um gole de café coado é uma exposição diferente de beber uma caneca inteira antes da aula. A recomendação pediátrica de evitar o consumo regular continua. Para interpretar uma ingestão acidental, importam o produto, a quantidade, o peso da criança e se ela apresenta sintomas.
Quanto de cafeína há no que a criança tomou?
Uma xícara não é uma medida fixa. O tamanho do copo, o tipo de grão, o preparo, a concentração e a porção mudam a quantidade de cafeína. Cafés gelados, bebidas prontas e preparos grandes podem conter tanto ou mais cafeína que uma pequena xícara coada. Por isso, regras caseiras baseadas em meia xícara para uma idade e uma xícara para outra não permitem prever a exposição.
Chá preto, chá verde, mate, refrigerantes de cola e chocolate contêm cafeína em quantidades diferentes. Guaraná em pó e alguns suplementos para treino também podem fornecê-la. Um adolescente pode ter tomado café no desjejum, chá gelado no almoço e uma bebida com guaraná antes do treino. Se aparecerem palpitações, considerar só o último produto deixa de fora parte da exposição. Alguns analgésicos também incluem cafeína entre os princípios ativos descritos na bula.
O descafeinado costuma ter bem menos cafeína que o café comum, mas pode conter uma pequena quantidade. Nos produtos que informam o teor em miligramas, faz diferença a qual volume o número se refere. Se a lata contém duas porções e a criança a bebeu inteira, a quantidade ingerida corresponde ao dobro do valor por porção. Se o número já se refere à lata inteira, não há o que multiplicar.
Quem pode sentir mais os efeitos?
Crianças com doença cardíaca ou pulmonar podem ser mais sensíveis à aceleração dos batimentos ou da respiração. Em quem toma estimulantes para o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), acrescentar cafeína pode acentuar irritabilidade ou dificuldade para dormir. Se a insônia, as palpitações ou o desconforto no estômago se repetirem, o nome do medicamento e o tipo de bebida ajudam o pediatra a investigar a queixa.
Os energéticos gelados podem parecer refrigerantes. É possível beber uma lata rapidamente, inclusive nas versões sem açúcar. Já cápsulas, pré-treinos com cafeína e cafeína pura em pó concentram o estimulante em pouco volume. Uma colher de cozinha não mede a cafeína pura com precisão. Esses produtos e os medicamentos merecem o mesmo cuidado de armazenamento, fora do alcance de crianças.
O que fazer se a criança ingeriu muita cafeína?
Se a criança ingeriu cafeína concentrada, tomou uma quantidade possivelmente alta ou ninguém sabe quanto ela engoliu, ligue de imediato para o Disque-Intoxicação, 0800 722 6001, mesmo que ainda esteja bem. O atendimento é gratuito, 24 horas. O nome do produto, o rótulo ou a embalagem, o horário, a idade, o peso e a quantidade aproximada ajudam a equipe a decidir se é necessário ir ao pronto-socorro. Não provoque vômito nem dê medicamentos para tentar cortar o efeito.
Batimento muito acelerado ou irregular, respiração rápida, agitação intensa ou tremores que a criança não consegue controlar após uma ingestão exigem atendimento imediato. Se ela estiver com dificuldade para respirar, desmaiar, tiver uma convulsão ou estiver com os batimentos muito rápidos ou irregulares, acione o SAMU pelo 192. Nessas situações, a emergência tem prioridade sobre a ligação para pedir informações.
Referências
- American Academy of Pediatrics. The Effects of Caffeine on Kids: A Parent’s Guide (atualizado em 11 de agosto de 2025).
- Centers for Disease Control and Prevention. Foods and drinks to avoid or limit.
- Ministério da Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos.
- FDA. Riscos da cafeína pura ou muito concentrada.
- National Capital Poison Center. Intoxicação por cafeína.
- Anvisa. Disque-Intoxicação.
- Secretaria da Saúde do Paraná. Como agir em caso de intoxicação infantil.
- Ministério da Saúde. Quando acionar o SAMU 192.




