A colocação de limites é uma das grandes preocupações na educação dos filhos, sobretudo no contexto do mundo imediatista e consumista em que vivemos

Em um momento em que muito se discute a inversão de valores na sociedade, a família é tida como o pilar que vai sustentar as soluções sociais e culturais para a formação de jovens e adolescentes.  O papel dos pais é importante pelo fato de serem usualmente os primeiros parâmetros da socialização. Mas como agir ao se deparar com as diferenças entre os filhos? O que fazer para colaborar com a transmissão dos valores de cada um? Os pais tentam amar os filhos com a mesma intensidade e tratá-los da mesma maneira, mas eles não são iguais na forma como se comportam.

“Os filhos são um depositário das expectativas dos pais. Quando esses filhos são muito diferentes daquilo que os pais esperavam, despertam sentimentos antagônicos. Muitas vezes tentar lidar com essas diferenças significa transitar por sentimentos de culpa, tristeza, vergonha, luto e frustração e algumas vezes alegria, solidariedade e esperança. Compreender e respeitar as diferenças humanas talvez seja um bom exercício para lidar com as peculiaridades entre os filhos. Como consequência vêm as facilidades de tratamento, educação, comunicação e limites distintos”, destaca o médico terapeuta Márcio Belo, do Instituto Persona de Campinas.

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Segundo Márcio Belo, tudo está dentro de um contexto. A formação da personalidade do indivíduo é um processo gradual, complexo e particular, que compreende o pensar, o agir e o sentir. Durante este processo, os fatores biopsicossociais colaboram para a formação das características dos seres humanos. Geralmente, os pais tentam passar os princípios e regras de maneira idêntica para todos os filhos. E se esquecem que cada filho é único e tende a interpretar o que os pais falam de formas diferentes, o que pode gerar conflitos.

Além do respeito às diferenças, a colocação de limites, cita o terapeuta, é outra grande preocupação na educação dos filhos, sobretudo no contexto do mundo imediatista e consumista em que vivemos. Essa dificuldade é apoiada no pensamento parental de que os filhos não podem sofrer e que todas suas necessidades serão supridas. Além disso, os filhos terão tudo o que faltou a seus pais. A ausência de limites gera uma falsa sensação de que podemos e conseguiremos tudo, o que na vida futura leva a uma incapacidade de lidar com as frustrações e com o sofrimento. “É bom lembrar que o sistema familiar é hierárquico e necessita dessa escala para o bom funcionamento”, completa Belo.

Outro ponto determinante na criação dos filhos está relacionado à educação sexual. Neste caso, o terapeuta ressalta que os pais devem primeiramente indagar “o que faz meu filho feliz” e “o que ele precisa para se realizar”. Se os pais não obtiverem as respostas de que precisam, o passo seguinte seria o questionamento aos filhos. “Talvez essas respostas ajudem a entender, compreender, respeitar e apoiar as decisões de cada um”, detalha, lembrando que cabe aos pais dialogar com seus filhos sobre temas como sexo, por exemplo. “É o genitor que tem mais facilidade e liberdade de abordar o tema com seu filho, independentemente se é menino ou menina.”

A complexidade dos temas ligados à educação confirma que o processo de construção de uma boa relação entre pai e filho está interligado a fatores variados.  “Algumas características da relação, como identificação, compreensão, acolhimento, respeito, generosidade, flexibilidade, segurança e capacidade de dar limites são alicerces para a construção de uma boa relação pai-filho. Se a relação está comprometida, podendo se expressar por meio de uma rejeição ou um distanciamento, será necessário rever e melhorar as deficiências para uma aceitação ou convivência melhor.”

E quando há necessidade de buscar a terapia? “Quando a dificuldade da aceitação do filho “diferente” comprometer as relações dentro da família e causar conflitos, sofrimento e prejuízos emocionais e no crescimento desse filho. A terapia é realizada com todos os membros familiares com a finalidade de reestruturar e convidar a família para novos padrões de comunicação e funcionamento, inclusive redefinindo papéis e relações. Tenta compreender a angústia familiar frente à realidade e o futuro desse filho”, conclui Márcio Belo.

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