O consumo do medicamento para tratamento de hiperatividade, o metilfenidato, aumentou em 75% no país entre crianças de 6 a 16 anos, de 2009 a 2011, revela pesquisa inédita da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. É chamado às vezes de DDA (distúrbio do déficit de atenção) e ocorre em 3 a 5% das crianças, em todo mundo.

Um dos fatos que mais chamam atenção no boletim é o pico de consumo durante os últimos meses letivos do ano e a brusca queda no período de férias, especialmente em 2011. Os sinais desses transtornos, de fato, são identificados, em sua maioria, na escola, mas não são restritos ao ambiente escolar. Essas crianças têm dificuldades nas funções cognitivas de atenção e memória, e, em alguns aspectos do desenvolvimento da linguagem, social e até emocional. E é na escola que estas dificuldades se tornam um problema maior.

Pesquisas cientificas, realizadas por vários países, inclusive o Brasil, demonstram que quanto mais cedo estes transtornos forem identificados por profissionais de saúde, melhor será o processo educacional, pois, tendo o conhecimento o professor poderá usar recursos pedagógicos adequados para o aprendizado. Esse diagnóstico ainda é um problema, pois, nem toda criança agitada tem o TDAH, e para esclarecer algumas dúvidas sobre o transtorno conversamos com a psicóloga Rita Calegari, do Hospital São Camilo.

Blog da Saúde: Como saber se a criança é hiperativa ou apenas agitada, como uma criança completamente normal?

Rita Calegari: É importante procurar um especialista (neurologista ou psicólogo) para realizar a avaliação. O TDAH é uma doença e, portanto, deve ser diagnosticada por um especialista na área. É muito comum que as pessoas da família rotulem as crianças como hiperativas e isso pode atrapalhar seu desenvolvimento, pois cria uma espécie de “desculpa” para a criança ser assim, além de não ajudar os responsáveis a tratar o problema de forma adequada.

Quais são os sintomas?

Desatenção, impulsividade e excesso de agitação psicomotora. Essa combinação deve ser avaliada na sua frequência, intensidade e impacto na vida da criança para que o diagnóstico seja realizado. No entanto, se os pais observarem a combinação em seus filhos procurem um especialista.

Dizem que a sala de aula é o ambiente mais propício para se notar se a criança tem o transtorno, os professores estão preparados para detectá-lo?

Sim, na sala de aula (pela questão de exigirmos que as crianças fiquem sentadas e concentradas) é mais nítido e mais fácil observar isso. Porém, os professores podem sinalizar os casos de TDAH e nem sempre eles são confirmados pelo especialista, pois o sistema de ensino ainda não parece beneficiar essa nova geração de crianças. Precisamos lembrar que, em muitas escolas, as salas de aula ainda são organizadas de forma muito parecida como era há décadas e, no entanto, as crianças são muito diferentes, em virtude do desenvolvimento social, acesso a tecnologias, entre outros. Há também a questão do despreparo técnico de professores em lidar com crianças consideradas mais “difíceis”, menos cooperativas nesse modelo de ensino e ai o diagnóstico de TDAH vira a “desculpa” perfeita, pois coloca o problema na criança e não no método de ensino antiquado.

Essas crianças possuem uma capacidade de memorização muito aquém de crianças normais, correto? Há alguma forma de elas conseguirem acompanhar o aprendizado do restante da turma?

Como tem a capacidade de concentração reduzida, sim, eles são mais esquecidos. No entanto, podem acompanhar o restante da turma (o quanto vai depender da avaliação do grau de TDAH, se é leve, moderado ou grave), porém precisam de mais estímulo, tarefas complementares e apoio familiar.

Há um tratamento específico para o TDAH? Algum medicamento?

Sim, psicoterapia e acompanhamento médico, pois além de medicações específicas, a orientação e apoio a criança e sua família são muito importantes, devidos às questões culturais fortemente associadas ao quadro.

Crianças com TDAH devem ter acompanhamento médico rigoroso? Tem que haver alguma atividade em especial durante a rotina dessa criança?

Após o diagnóstico realizado, sim, especialmente quando houver prescrição de medicação. Bem, passar por acompanhamento médico e psicológico regularmente já é uma atividade bem especial, quando comparamos às outras crianças. Dessas atividades, outras podem ser sugeridas para complementar o tratamento como atividades físicas, artes, entre outras.

 O que é aconselhável colocar na rotina da criança para que ela consiga ter uma vida normal?

Eu realmente acredito que pouca atenção é dada aos pais e familiares nesse sentido. Ainda temos o princípio de avaliar causa e efeito, e neste caso, a causa parece ser a criança então todas as medidas de tratamento recaem sobre ela. Mas a família próxima, pode influenciar negativamente o tratamento se não estiver consciente de seu papel. A família deve ser “tratada” também, para não piorar o quadro, para não intensificar os sintomas e para ter aptidão para que a criança supere sua dificuldade e viva uma vida o mais próxima do normal possível. Neste caso, eu recomendo que para ajudar a criança, ela tenha a chance de conviver com uma família bem estruturada.

Crianças com TDAH, em muitos casos, possuem também algum outro transtorno. As escolas, no atual modelo, estão aptas a lidar com essas crianças? Ou tem que haver uma mobilização do governo em criar alguma política especial para essas crianças?

No Brasil não há ainda políticas educacionais para esse tipo de problema que, embora seja detectado no ambiente escolar, não há uma diretriz em como tratar desses casos. Vejo um grande problema, pois muitas vezes a criança com TDAH pode ser indócil e rebelde, mas nem toda criança rebelde e indócil tem TDAH. Nesse caso as escolas devem organizar programas e parcerias em como lidar com essa questão sem subestimá-la ou superestimá-la.

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